ara lá do avô, de Brandon
e de Lyanna, para lhes mostrar suas próprias sepulturas.
Sansa não tirara os olhos da velinha atarracada, temendo que
se apagasse. A Velha Ama dissera-lhe que ali embaixo havia
aranhas e ratazanas do tamanho de cães. Robb sorrira
quando ela disse aquilo, "Há coisas piores que aranhas e
ratazanas", sussurrara. "É aqui que os mortos caminham,"
Foi então que ouviram o som, baixo, profundo e trêmulo. O
pequeno Bran agarrara-se à mão de Arya.
Quando o espírito saíra da tumba aberta, branco e gemendo
por sangue, Sansa fugira aos gritos para a escada, e Bran
enrolara-se na perna de Robb, soluçando. Arya mantivera-se
firme e dera um murro no espírito. "Seu estúpido", dissera-
lhe, "assustou o bebê", mas Jon e Robb limitaram-se a rir, e
em breve Bran e Arya também começaram a rir.
A recordação a fez sorrir, e dali em diante a escuridão deixou
de conter terrores. O cavalariço estava morto, ela o matara e,
se ele saltasse sobre ela, o mataria de novo. Arya ia para casa.
Tudo seria melhor quando estivesse de novo em casa, segura
entre as muralhas cinzentas de granito de Winterfell.
Seus passos fizeram correr suaves ecos à frente enquanto
mergulhava mais profundamente na escuridão.

Sansa

Vieram buscar Sansa no terceiro dia.
Escolheu um vestido simples de lã cinza-escuro, com um corte
despretensioso, mas ricamente bordado em volta do colarinho
e das mangas. Sentiu os dedos grossos e desajeitados
enquanto lutava com as presilhas de prata sem a ajuda de
criados, Jeyne Poole fora confinada com ela, mas Jeyne não
servia para nada, Tinha a cara inchada de tanto chorar, e não
parecia ser capaz de parar de soluçar por causa do pai.
- Estou certa de que seu pai está bem - Sansa lhe disse,
quando finalmente conseguiu abotoar bem o vestido. - Pedirei
à rainha que a deixe vê-lo - pensou que a gentileza talvez
melhorasse o estado de espírito de Jeyne, mas a moça limitou-
se a olhá-la com olhos vermelhos e inchados, e pôs-se a chorar
ainda mais. Era uma cr iança.
Sansa também tinha chorado, no primeiro dia. Mesmo dentro
dos robustos muros da Fortaleza de Maegor, com a porta
fechada e trancada, era difícil não ficar aterrorizada quando a
matança começou. Crescera ao som do aço, no pátio, e
dificilmente se passara um dia da sua vida em que não tivesse
escutado o estrondo de espadas que se cruzavam, mas saber
que a luta era real fazia toda a diferença do mundo. Ouvira
esse som como nunca o tinha ouvido antes, e também outros,
grunhidos de dor, pragas iradas, gritos por ajuda e os gemidos
dos feridos e moribundos. Nas canções os cavaleiros nunca
gritavam nem suplicavam por misericórdia.
Por isso, chorou, suplicando, através da porta, que lhe
dissessem o que estava acontecendo, chamando pelo pai, pela
Septã Mordane, pelo rei, pelo seu galante príncipe. Se os
homens que a guardavam ouviram suas súplicas, não lhes
deram resposta. A única vez que a porta se abriu já era tarde,
naquela noite, quando atiraram Jeyne Poole para dentro do
quarto, machucada e tremendo. "Estão matando todo
mundo", choramingou a filha do intendente. E falou, e
continuou a falar. Dissera que Cão de Caça lhe derrubara a
porta com um machado de guerra. Que havia corpos na
escada da Torre da Mão e que os degraus estavam
escorregadios de sangue. Sansa secou as lágrimas enquanto
tentava confortar a amiga. Adormeceram na mesma cama,
aninhadas nos braços uma da outra, como irmãs.
O segundo dia foi ainda pior. O quarto em que Sansa foi
confinada ficava no topo da torre mais alta do castelo de
Maegor. Da janela podia ver que a pesada porta levadiça do
portão estava descida e que a ponte levadiça estava içada
sobre o profundo fosso seco que separava a fortaleza-dentro-
de-uma-fortaleza do castelo maior que a rodeava. Guardas
dos Lannister percorriam as muralhas armados de lanças e
atiradeiras. A luta tinha terminado, e um silêncio de túmulo
caíra sobre a Fortaleza Vermelha. Os únicos sons que se
ouviam eram os intermináveis choros e soluços de Jeyne
Poole.
Eram alimentadas - queijo duro, pão fresco e leite no café da
manhã, galinha assada e verduras ao meio-dia e uma ceia com
carne de vaca e cevada -, mas os criados que traziam as
refeições não respondiam às perguntas de Sansa. Naquela
noite, algumas mulheres trouxeram-lhe roupas da Torre da
Mão, e também algumas das coisas de Jeyne, mas pareciam
quase tão assustadas como Jeyne, e quando Sansa tentou
falar com elas, fugiram como se ela tivesse a praga cinzenta.
Os guardas, lá fora, continuavam se recusando a deixá-la sair
do quarto,
- Por favor, preciso falar de novo com a rainha - Sansa lhes
disse, tal como o dissera a todas as pessoas que vira naquele
dia. - Ela vai querer falar comigo, eu sei que vai. Diga-lhe que
desejo vê-la, por favor. Se não a rainha, então o Príncipe
Joffrey, por obséquio. Deveremos casar quando formos mais
velhos.
Ao pôr do sol do segundo dia um grande sino começou a
repicar. Tinha um tom profundo e sonoro, e o longo e lento
repique encheu Sansa com uma sensação de pavor. O